quarta-feira, 7 de abril de 2010

Acolá

O pano amarrado por suas extremidades marca um paralelo no horizonte e convida a outro universo. Com os pés, de leve, balanço no ar e dou partida a uma viagem de sensações...

A luz que chega com o fim da tarde por entre as nuvens, tinge em tons de amarelo o cenário monocromático e a ponta de cada folha de árvore. Um verde mais claro veste todo o entorno até o limite denso da mata fechada.

Com força, impulsiono meu corpo pro lado oposto - oposto e acima das mesmas nuvens que escondem o calor redondo do restante do céu. Logo que me encontro no lugar desejado, estico o pescoço e, em estado de êxtase atordoante, me vejo cega diante da explosão de um branco ensurdecedor. Saio do meu corpo sem perceber e me projeto na continuação do movimento primeiro. O reflexo de imediato ao susto é fechar os olhos. Fica mais fácil de me achar no escuro. E assim o faço, só que agora na descida. O que antes etéreo, dessa vez soma com maior peso à boca do meu estômago (não vejo a hora de concluir a trajetória errante deste arco!). Sinto a mudança de temperatura no meu rosto e depois de completamente estática, nos confins do meu corpo. Um instante de relógio, mas uma pequena eternidade em mim.


* foto de A. C. Kehl ( ackehl.multiply.com)

terça-feira, 23 de março de 2010

Palavra-Espaço-Palavra

O canto do vento na fresta da janela parecia anunciar o estrondo da porta descuidada do vizinho. Como os primeiros clarões num céu enegrecido, antecipando o fim do mor-março. Qualquer brisa a esta altura é bem-vinda. E quando acompanhada por pingos espaçados dão origem à progressão: quanto maior a velocidade, mais pesados eles ficam. Por resultado temos um dilúvio-alívio.



Mais um dia se desprende do tempo e nada acontece. Da parede escorre, em texturas e cores, a umidade. A tevê ligada na sala conversa com o silêncio e me impede de dormir. A noite atormenta mais que o dia. E o escuro do quarto é pintado por meus devaneios – só eles se movimentam. Um corpo respira na cama.



Espaço-Palavra-Tempo-Pingo-Vento-Palavra-Espaço-Pingo-Pingo-Tempo-Dia-Espaço-Noite-Nada-Palavra-Espaço-Palavra



terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Hoje

Em dias assim

Quem dera não fosse

E o que seria de hoje

Se só existisse o amanhã?

Não diria que sou,

Tampouco estou (mas gostaria de ser)

Talvez encontre comigo

E se encontrar? O que digo?

Serei direta:

“Não se meta a questionar o tempo!

Pra que tanta pressa?”

Dormiria sem entender bem

Quem é você

Sonharia, então, até de manhã.

Neste sonho,

Minha vida eu mesma construía,

Dia após dia

Errava, sofria, ganhava, perdia

Vivia como vivo

Sonhava porque acredito

Seria como sou

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Pedido

Naquela noite

Senti-o em meus braços...

Eis o pedido e o que faço

Pra conter meu desejo?

Pois, que tudo o que vejo

Faz lembrar o lamento.

Cheiro o vigor de outro tempo,

Miro o retrato sem dor.

O que hoje transborda

Ontem escondia

Da luz, a certeza

Do olhar, a alegria.

Nas horas que iam

Escoava o pedido

Que, de gota, volta fluido

Enche o rio, corre os montes.


* escrito em 2007

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ano Novo




- “Ei, você!” E de repente, percebe que não há saída. Que sua vida não basta, mas que por algum motivo está perto do fim. No último dia do ano, a última roupa manchada e o último pedido não atendido. 1, 2, 3, 4, 5... 6 silêncios na alma e os fogos coloridos na vista turva do que seria o amanhã.




* dedicado a Vicente Maiolino.