quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Caiana

A claridade do dia esgarçava as cortinas, tocando delicadamente meus olhos. O espreguiçar demorado de braços e pernas desvelava um desejo oculto de estender o tempo por minutos, horas - pausas inteiras sem ponteiros. Despertaria num rompante, não fosse a noite anterior e o pontear das melodias que teimavam em ressoar nos meus sonhos.

As tranças de mãos, chitas e sandálias desenham o círculo espelhado no céu. O cortejo segue entre bois, carimbós, cocos e tambores - danças e signos pra Lua. De certo a caiana contribuiu para um estado mais leve de adoração, quase flutuante eu diria. Era um lugar simples, uma praça central e sua igreja. E um festejo pouco comum pros dias de hoje.

Despertei ouvindo o canto de um galo. O espanto não foi maior porque, tempos depois, apesar de me situar na parte central do saudoso Estado da Guanabara, algo mais inusitado aconteceu. Ao longe, porém igualmente perceptível, um homem grita: “Olha o leeeeeeeite!” Levantei da cama e corri pra janela. Queria ver se era verdade. Mais ainda, procurava pela garrafa de vidro, cheinha de leite, com a vaquinha vermelha na frente, que enfeitava a nossa porta antigamente.

* Foto de Brínea Costa

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A primeira

O CANTO DO PAJÉ
(Heitor Villa-Lobos e C. Paula Barros)

Oh, manhã de sol
Anhangá fugiu
Anhangá rê rê
Ah, foi você
Quem me fez sonhar
Para chorar a minha terra
Guaracy rê rê
Anhangá fugiu
Oh, Tupã, Deus do Brasil
Que o céu enche de sol
De estrelas de luar e de esperança
Oh, Tupã tira de mim esta saudade
Ah, Anhangá me fez
Sonhar com a terra que perdi
Oh, Anhangá fugiu,
Fugiu, rê rê
Oh, manhã de sol
Rê rê de sol
Anhangá fugiu
Fugiu, a-há foi vc quem me fez sonhar
Chorar a minha terra
Guaracy rê rê
Anhangá, fugiu, fugiu,
Oh, manhã de sol,
Anhangá fugiu
Oh, manhã de sol,
Rê rê rê rê


(Poema anterior: "Noites Pesadas", de Mário de Andrade)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Leia e ouça

Uma pequena seleção de músicas no rodapé desta página.



E você? O que está ouvindo ultimamente?




Deixe-me saber...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Caminho ao Revés *

No véu que esconde seu olhar

A imagem refletida se perdeu

Junto com ela, a desbotar,

Meu cais...


Sonho que o tempo, em si, refaz

Anseio que o receio atroz desfez

Em ais... Não volta a ser!


O céu que havia nesse olhar

Traçava a direção, luzia o breu

Ando sem rumo a procurar

Nem sei...


Se a cada passo avanço mais

Ou traço meu caminho ao revés

Pro fim... de achar você.


* música composta em agosto de 2008.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Por detrás do olhar

Onde estará a verdade?

Como isso tudo aconteceu?

Se não lembro dos detalhes, desconfio.

Enquanto vivo, descomunico

O que sinto - meu boicote.

Você me pergunta então:

- O que viu no meu olhar?

- Seu olhar? Ah, sim... o olhar.

Meu olhar se inibe com seu olhar, como se olhasse com seus olhos tristes. E outro olhar observa a cena de fora com olhos de quem proíbe.

As palavras construídas soam como mentiras, na mesma proporção da dúvida, minha.

Falo, mas nem eu mesma acredito.

Ouça-me, ouça com meus ouvidos! De repente, assim, entenda o que venho dizer. Ou acredite sem pestanejar.

- É isso! Está me ouvindo?!

Eu vi quando olhou pra ela com o olhar que nunca me viu. Mas meu olhar já olhava o dela antes disso existir. Por isso, não acho que olho pra ela pra lhe provocar, mas porque sinto prazer no olhar.

Meu olhar olhou o dela, o dela olhou o meu. Seu olhar como era? Já me envergonho de ver.

Sob os olhos dela que desejos hão de ter? Não sei. Fiquei cega olhando o outro olhar que nem era o seu.


Tempo

Será agora o momento?

Em quanto tempo?

Poesia é vento.


Enquanto penso, não escrevo

E a poesia é

Vento

Lendo, bebo.

Sendo, vejo.

Escrevo, duvido

Escrevo.

É seca a terra

E deito nela

À espera,

À espreita.

Lenta faz-se a colheita.


(em março de 2008)